Editora Record Rio de Janiero
Sao Paulo, 2007
ISBN:978–85-01–07550-5
Capítulo 1
Um dos segredos mais bem guardados de Cuba é que, durante vários anos, o indivíduo mais respeitado no Diretório Geral de Inteligência era a coronel Victoria Valiente, uma
psicóloga.
O general’brigadeiro Edmundo Lastra (codinome Gabriel) era o di-retor-geral, o coronel Enrique Morera (Bernardo) era seu assistente, mas a mulher que comandava a seção Miami do Departamento de Estado dos Estados Unidos ganhara a admiração dos superiores e subordinados devido à sua longa lista de notáveis realizações. Sob a sua orientação, a seção apresentou relatórios, emitiu alertas, e fez previsões consideradas extremamente valiosas pela liderança do país.
Conseguiu isso plantan’ do novos e bem treinados agentes secretos na área da Grande Miami, acionando agentes infiltrados, aprovando o recrutamento de valiosos informantes, se opondo ao alistamento de alguns que acabaram se revelando informantes do FBI, examinando exaustivamente fontes públicas e /acendo suposições com fundamento e geralmente corretas.
Conhecida na comunidade de inteligência da ilha pelo codinome MÍ-caela, Victoria foi transferida do Ministério das Forças Armadas Revolucionárias para o Diretório Geral de
Inteligência do Interior em fins de 1989, na esteira de um escândalo de contrabando de drogas envolvendo a inteligência cubana corrupta e oficiais militares. Em 12 de julho daquele ano, o mundo ficou sabendo que quatro dos culpados foram executados por pelotões de fuzilamento. Em 1983, Victoria entrou para o Departamento de
Contra-inteli-gência Militar do Ministério das Forças Armadas Revolucionárias, logo após se formar na faculdade de psicologia da Universidade de Havana. Na época, só havia
visto os instrumentos de seu ofício — aparelhos de escuta telefônica, mini-câmeras e detectores de grampo — no cinema.
Ela ignorava criptologia elementar, só havia disparado uma pistola duas vezes na vida e detestava judô, caratê e outras formas de combate desarmado. Nunca viajara para o exterior.
Fisicamente, Victoria era um pouquinho abaixo do sem graça. Quando criança, um de seus professores na escola primária brincava dizendo que a mãe. dela jogara f ora o bebê
e criara a placenta. O que parecia estranho, tanto para os seus pais quanto para os seus professores, era o fato de Victoria conseguir boas notas nas provas, apesar da menina as-mática e vesga raramente ler os livros da escola.
Embora a sua aparência tenha melhorado notavelmente durante a puberdade, Victoria cresceu meros l ‚57m, nunca pesou mais de 50kg, tinha um rosto extremamente comum, e
usava seu cabelo castanho-claro em cachos. Os óculos, necessários para corrigir o astigmatismo, tornavam inexpressivos os olhos verdes, e sua figura era mais angular do que arredondada nos lugares onde importava. Nem os velhos tarados nem os jovens rapazes virgens a cobiçavam quando ela tomava banho de sol na praia vestindo um sunquíni. Talvez por esse motivo, de um ponto de vista sexual, Victoria viveu como uma santa. Perdeu a virgindade aos 21 anos e, quando se casou, 11anos depois, havia feito sexo com apenas três homens. Contrário ao mito popular, esta mulher muito sem graça, nada atraente, freqüente mente experimentava três orgasmos em meia hora e, depois de dez anos de casada, instigava o marido a praticar sexo de duas a três vezes por semana, quatro se ele topasse. A falta de motivação para dar à luz ou a falta de jeito para a maternidade a fizeram tomar pílulas contraceptivas durante 17 anos consecutivos.
Mas o notável apetite sexual não era a qualidade mais admirável da Sra. Valiente. Ela possuía três outras virtudes, entre elas a inteligência. Admiradora e discípula do psicólogo inglês RaymondB. Cattell, ela leu 17 de seus 41 livros e muitos de seus artigos.
Cattell foi o primeiro a postular que o problema chave na psicologia da personalidade era a previsão do comportamento. Ele classificou as características em três categorias: dinâmica (aquilo que leva um indivíduo a entrar em ação para akançar um objetivo), habilidade (que diz respeito à eficácia individual para akançar um objetivo), e temperamento (aspectos como disposições, humores e emoções). Após a sua transferência para o Diretório Geral de Inteligência do Interior, Divisão de Pessoal, Departamento de Avaliação, Victoria desenvolveu uma teoria própria de como fazer o perfil psicológico a distância de um futuro espião baseado nos ensinamentos de Cattell.
Ela estudava os arquivos de candidatos enviados por autoridades de campo, rejeitava vários e pedia informação adicional sobre aqueles que pareciam ter possibilidades latentes. Então, eliminava mais alguns, recomendava quais os agentes que se aproximariam dos poucos escolhidos e escrevia roteiros. Com um bom faro para a política, Victoria acompanhava os acontecimentos mundiais diariamente para escolher aqueles que, caso mencionados a um candidato a informante ou a um informante já na ativa, pudessem fortalecer a sua decisão de trair seu governo, instituição ou empresa. Ela preferia que o recrutamento fosse baseado em afinidade ideológica, mas deixaria de lado os seus escrúpulos caso a chantagem ou o sexo fizessem o gato sair do saco. Em uma Cuba imobilizada, comprar informação era uma medida de último recurso.
Durante os seus quatro anos de avaliação, Victoria fez o perfil de muitos possíveis informantes: gente que trabalhava para o Ml6, o Vaticano, DGSE, Sisde, FÍS*, o Serviço de Segurança Federal, três diferentes agências das Nações Unidas, a Comissão Européia, os Ministérios das Relações Exteriores da Alemanha e da Espanha, a presidência do México, a Anistia Internacional, a Roche e a Aventis.
No meio tempo, devorava livros de espionagem. O tenente encarregado da biblioteca do Diretório de Inteligência ficou absolutamente maravilhado e acabou compilando uma lista: em quatro anos, Victoria lera 132 livros, incluindo todos os clássicos. Era sempre a primeira a ler os novos títulos. Afinal, sua opinião acabou se tornando altamente respeitada e suas recomendações raramente eram questionadas. Mas não foi sempre assim. No início dos anos 1990, seu superior não conseguiu acreditar que ela falava a sério quando solicitou levar um promissor candidato à Disney World para pedir que trabalhasse para o serviço secreto cubano naquele momento. Em outra ocasião, ela sugeriu recrutar um padre piedoso de 66 anos que ouvia as confissões de um agente. Em ambos os casos o superior, agora aposentado, pediu-lhe que ela o convencesse. Ela o fez sem paixão, usando o seu método de perfil psicológico remoto. Foi tão convincente que os dois planos foram aprovados. E funcionaram. Em 1993, algumas semanas depois que ela. impressionou a todos ao planejar o recrutamento de um grande cientista europeu, que concordara em revelar resultados das pesquisas de sua empresa em busca de uma vacina contra a AIDS, ordenaram que Victoria comparecesse a um escritório no terceiro andar do Conselho de Estado, às Wh, onde lhe pediram para fazer o teste de QI da Mega Society.
Isso foi muito surpreendente para ela, porque, antes da queda do Muro de Berlim, os partidos comunistas no poder apresentavam uma fachada bastante simplista e homogênea no que dizia respeito à política, economia, sociologia e psicologia. Teorias não-marxistas-kninistas no campo da evolução social e das respostas humanas eram rejeitadas. O materialismo dialético fornecia a única chave para revelar o complexo comportamento dos indivíduos e das sociedades. Tendo estudado naqueles anos em que os testes de quociente de inteligência eram desprezados como bruxaria capitalista, Victoria tinha escasso conhecimento deks e jamais se submetera a um.
Na prática, porém, tendo se dado conta de que este tipo de preconceito impedia o acesso a importantes pesquisas e conhecimentos, a partir dos anos 1960 quase todos os secretários-gerais de partidos comunistas designaram alguns de seus mais confiáveis colaboradores para dirigirem pequenas unidades especializadas que aplicavam técnicas como testes padronizados para medir a inteligência das pessoas. Em sua primeira tentativa, Victoria Valiente deu 42 respostas certas. De acordo com a quinta norma Hoeflin do Mega Test, ela marcou 176 pontos. Em linguagem corriqueira, aquilo significava que, entre meio milhão de pessoas, só uma tinha o alto nível de inteligência, estabilidade emocional e coordenação motora de Victoria.
O velho que pedira que o teste fosse feito — simpksmente chamado Chefe ou Comandante pebs membros de seu círculo interno, Comandante’ Camaradas em Miami 13 em-chefe em público, Poderoso Chefão, pelas costas, Comediante-emchefe, em Miami, e Santo Pai por um historiador abjetamente submisso — sentou-se em sua cadeira executiva para analisar os resultados de Victoría. Por um lado, era de desapontar descobrir que um carpinteiro semi-analfabeto e uma costureira haviam apresentado ao mundo um supergênio, enquanto nenhum de seus filhos conseguiu marcar mais de 130 pontos. Por outro, olhando para o lado positivo das coisas, encontrou conforto no fato de que entre todos os cretinos incompetentes, submissos e inseguros que o cercavam, havia um indivíduo que, como provara ciência, era extremamente inteligente.
Posteriormente, o chefe ficou seduzido quando começou a ler o arqui-i o pessoal secreto de Victoria. Nascida em le de janeiro de 1959, seus pais a chamaram de Victoria porque aquele foi o dia em que o ditador Fulgêncio Batista fugiu de Cuba. Os revolucionários proclamaram aquele como o Dia da Vitória. O sobrenome de seu pai era Valiente, de modo que, tanto em espanhol quanto em inglês, seu nome significa’ i a literalmente Vitória Valente e, figurativamente, Vitória Galante. Sem :onhecê’la pessoalmente, o Chefe promoveu Victoria a tenente-coroneí e a transferiu para a seção Miami. O general Lastra desconsiderou por duas vezes as objeções de Victoria em seu novo cargo. O coronel Mor era a contrariou em quatro ocasiões. As conseqüências foram catastróficas. Três desses seis recru-;as revelaram-se agentes duplos, dois dos quais conseguiram infiltrar uma ‘ede de 12 pessoas em Miami que, após três anos de atividades, o FBI ismanteiou, em J 998. Na noite em que soube do desastre por meio de seu ministro do Interior, o Chefe chamou Lastra e Morera ao seu escritório
.
– Micaela aprovou o recrutamento desses filhos-da-puta? — gritou, apoplético e furioso, quando soube que eram agentes do FBI.
Olhando para as próprias botas bem polidas, o general e o coronel
balançaram as cabeças.
- Eu sabia! — disse o Chefe, triunfante.
Na ante-sala anexa, um auxiliar muito zeloso, ao ouvir seu ídolo se exaltar e temendo que tivesse um derrame ou um ataque cardíaco, chamou o médico de plantão. Após sussurros apressados, o médico bateu e entrou no Olimpo para tomar a pressão sangüínea de Zeus.
— Saia daqui! — berrou o paciente, braço apontando rigidamente para a porta, no momento em que viu o recém-chegado. O médico empali’ deceu, fez uma rápida meia-volta e fechou a porta atrás de si. Seguiu-se uma pausa profunda de seis minutos enquanto o Número Um caminhava a esmo pela. sala. Lastra e Morera mantiveram as cabeças baixas. Final mente, o Chefe parou em frente aos oficiais, encarando-os.
- Olhem para mim!
Seu rosto se inflamou. A barba grisalha balançou de raiva.
- Seja lá o que Micaela recomendar, mesmo que seja contra o seu bom senso, vocês farão. Vocês fizeram grandes sacrifícios pela Revolução. Não quero obrigá-los ase aposentarem prematuramente. Mas se voltarem a contrariar Micaela, vocês estão acabados. Fui claro?
- Sim, Comandante-em-chefe — disseram os dois em coro.
— Tudo bem, vamos ver agora o que podemos fazer por nossos camaradas.


[…] Livros: Reinaldo Lourenço; Inovação a Arte de Steve Jobs; Os 10 Mandamentos do Bom Senso; Camaradas em Miami; O Inocente Como a feira do livro fica na praça da alfândega ao lado do espaço […]