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Mundos Sujos (Record)

Mundos Sujos (Record)

2005

Pub­lished by: Record

ISBN: 85–01-06835–7

Capí­tulo 1

À som­bra das árvores do par­que público, Elliot Steil sentou-se no banco sem encosto, repousou o cal­can­har esquerdo no joelho dire­ito, descalçou um sap­ato bas­tante gasto e se pôs a mas­sagear o pé. Min­u­tos mais tarde deu o mesmo trata­mento ao pé dire­ito. Por fim, colo­cou ambos os cal­can­hares na calçada de cimento e mexeu os dedos enquanto segu­rava a laje de már­more na qual es­tava sentado.

Mas que dia, pen­sou Steil.

Suas reser­vas de café e açú­car tin­ham se esgo­tado simultanea­mente havia dois dias, e seu desje­jum con­si­s­tira de 40 gra­mas de pão branco dormido e um copo de água gelada. Alguns min­u­tos mais tarde desco­briu que os pneus de sua bici­cleta estavam fura­dos. Depois de pas­sar 75 min­u­tos esperando um ônibus, havia chegado ao Ins­tituto Politéc­nico, onde lecionava Lín­gua Inglesa. Bat­era o cartão às 10:02 da manhã, com duas horas e dois min­u­tos de atraso.

O almoço tinha sido uma ração mis­erável de arroz insosso e fei­jões ver­mel­hos pouco cozi­dos, acom­pan­hados por tomates excessi­vamente maduros. O pro­fes­sor deixou o pré­dio às cinco da tarde, pon­derando se devia cam­in­har de volta para casa ou gas­tar mais de seu tempo livre no quase inex­is­tente sis­tema de trans­porte público de Havana. O apagão, mar­cado para durar das oito às onze da noite, e as tare­fas domés­ti­cas que o aguar­davam obrigaram-no a percor­rer os oito quilômet­ros a pé.

Ao via­jar de ônibus ou bici­cleta, Steil fre­qüen­te­mente esque­cia os ossos metatar­sos prob­lemáti­cos her­da­dos de algum antepassa­do descon­hecido. As cor­reções ortopédi­cas para os sap­atos comuns, com­pra­dos num camelô, ficavam inefi­cazes depois de uma caminha­da de 40, 45 minutos.

Com um sus­piro, Steil levan­tou os olhos da calçada, focando-os em dois ado­les­centes que se aprox­i­mavam. Os rapazes interrom­peram sua con­versa assim que o viram, e se entre­ol­haram com sor­risos debocha­dos. O louro magricela vestido com bermu­das fol­gadas e tênis, car­regando uma bola de bas­quete debaixo do braço, subita­mente levan­tou a cabeça e espre­meu o nariz com os dedos.

- Sabe de uma coisa? Devia ter trazido minha más­cara de gás –brin­cou o garoto mais alto, um mulato claro, enquanto os dois pas­savam por Steil.

Os rapazes emi­ti­ram uma série de ris­in­hos sar­cás­ti­cos. Seis ou sete pas­sos depois pararam de achar graça, e bat­eram nas pal­mas um do outro — primeiro no nível do ombro, depois no da coxa — an­tes de retomarem sua con­versa normal.

Steil não ficou magoado com o comen­tário. Até sor­riu, certo de que seus pés não fediam. Depois de 20 anos como pro­fes­sor do ensino médio, ficara acos­tu­mado com o jeito dos ado­les­centes. O que o impor­tu­nava era o espan­hol regres­sivo que a juven­tude es­tava usando. Como pode­riam apren­der uma segunda lín­gua quan­do não con­seguiam se expres­sar dire­ito nem em espan­hol? A cada ano letivo dimin­uía o número de alunos que falavam cor­re­ta­mente. Só as garo­tas mais cul­tas ainda se expres­savam dire­ito. Os meni­nos com capaci­dades de redação e comu­ni­cação acima da média var­riam tudo que sabiam para debaixo do tapete, com medo de serem ridic­u­lar­iza­dos impiedosa­mente por seus colegas.

Habili­doso, o rapaz louro e magricela quicava a bola com a mão esquerda, enquanto cam­in­hava para longe com seu amigo. Steil cal­çou os sap­atos e prosseguiu sua longa caminhada.

Uma hora depois, Steil acabara de dobrar a esquina de seu quar­teirão quando se viu cer­cado por um bando de garo­tos tagare­lando sobre um carro tinindo de novo e um tur­ista. Sabendo que estava im­paciente dev­ido à dor e ao cansaço, ten­tou desvencilhar-se das crian-gas. Mas os meni­nos insi­s­ti­ram em blo­quear seu cam­inho, pulando e berrando que um amer­i­cano havia Ihes dado chi­clete. Steil parou e os fitou com sev­eri­dade, impondo silêncio.

- Muito bem. Lemar, o que esta havendo?

- Tem um amer­i­cano procu­rando por voce. Chegou naquele carro ali — disse o menino, apon­tando para a frente. — Gan­hamos chiclete!

Sur­preso demais para rea­gir, Steil pas­sou um momento com o olhar fixo no menino de nove anos, indisc­u­tivel­mente o lider do grupo.

- Muito obri­gado, meni­nos. Agora voltem para o que estavam
fazendo, certo?

Steil virou-se e olhou para o Toy­ota Corolla esta­cionado no meio-fio, bem em frente ao seu pré­dio. Tinha pla­cas de tur­ista, e atras do volante estava a sil­hueta de um homem sen­tado. A pas­sos exaus­tos, o pro­fes­sor aproximou-se do carro e parou do lado do mo-torista. Um homem no fim da casa dos sessenta anos olhou para cima, sobrancel­has grossas soer­guidas por um instante, labios afas-tando-se em surpresa.

- Procu­rando alguém? — per­gun­tou Steil.

- Gra­gas a Deus — disse o motorista. — Parece que a unica coisa que as pes­soas daqui sabem dizer em inglês é gimme. Sim, estou procu­rando por Elliot Steil.

- Sou eu.

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